ARTIGO: Autonomia consciencial cosmoética

Por Maria Regina Camarano*
Autonomia consciencial é a capacidade de a pessoa tomar decisões, com maturidade, aplicando o livre arbítrio. A relação da autonomia consciencial com a Cosmoética (ética universal, cósmica, independente da cultura e da moral humana, vivenciada pela consciência em todas as dimensões em que atue) pode ser explicada pelo fato de, ao tomar decisões, ser relevante a análise do posicionamento quanto aos benefícios ou malefícios para a própria pessoa e para os outros. A Cosmoeticologia, cujo objeto de estudo é a Cosmoética, tem como princípio: “que aconteça o melhor para todos”. É possível se considerar a compreensão e autovivência da Cosmoética como a ação balizadora do autoposicionamento íntimo com liberdade.
Com o intuito de se compreender a dimensão da autonomia consciencial, a relação com a Cosmoética e a importância para as pessoas, é conveniente se verificar as causas da falta de autonomia, conforme pode ser constatado com base na análise dos propósitos de vida da maioria dos homens e mulheres, jovens ou não, ignorantes quanto à realidade da própria existência e influenciados pelo meio social e cultural. Essa influência resulta da pressão holopensência – conjunto dos pensamentos, sentimentos e energias dominantes nos ambientes e característicos de determinada sociedade – sobre o indivíduo, decorrente das interações e trocas energéticas que se processam regularmente entre as pessoas.
Diante dessa circunstância, o indivíduo deixa de pensar por si mesmo, com base na própria experiência, de acordo com a sua realidade íntima, intraconsciencial, caracterizada pelas particularidades que o distinguem do outro, passando a assumir valores aceitos pela sociedade, sem questioná-los. Tal qual a consciência títere, instala-se a condição de submissão ou subjugação da pessoa à vontade e interesses de outras consciências, expressa pelos pensamentos, sentimentos e energias dominantes.
Pela lei do menor esforço individual e necessidade de identificação com os valores dominantes, fonte de prestígio e poder, acatar para si o que parece melhor para todos pode promover a retroalimentação do holopensene, a assimilação dos pensamentos, sentimentos e energias do conjunto da sociedade. Por outro lado, pensar, sentir e agir igual aos outros facilita, também, a aceitação do indivíduo pelo grupo social. É assim que a pessoa deixa de pensar por si própria, muitas vezes deixando de fazer o que era melhor para ela e para o outro, gerando a condição de inseparabilidade do grupo, em decorrência das ações anticosmoéticas praticadas conjuntamente, conforme a lei da evolução consciencial.
Esse processo pode ser inconsciente, tendo em vista a imaturidade do indivíduo, errando por ignorância, mas pode ser consciente e vivenciado para se obter ganhos secundários. Os ganhos secundários se caracterizam por satisfações, momentâneas ou não, possibilitando a permanência do indivíduo na zona de conforto, sem consequências aparentes para a vida da pessoa, funcionando, não raramente, como estagnadores da autoevolução da consciência.
Fato exemplificador das considerações apresentadas é a pessoa que escreveu artigo, tese ou livro, influenciada pelas pessoas ao redor e pela leitura de autores reconhecidos por seu círculo de amizade, ou pela sociedade em geral, isto é, por pressão holopensênica, sem refletir por si mesma sobre as ideias, posicionamentos e avaliação dos mesmos quanto aos princípios cosmoéticos.
Em algum momento de sua existência, ou de suas existências, considerando-se a multisserialidade, as várias existências de cada pessoa, pode surgir o desconforto interior, por ocasião de melhora do nível de lucidez e do autodiscernimento, tornando-se ciente de que a atitude tomada tratava-se de um ato impensado ou pensado pelo outro e sem relação com os valores íntimos pautados na Cosmoética. Surge o sentimento de vergonha quanto à ideia defendida, atualmente sem sincronia com os valores pessoais assumidos, mas, quando grafada,
repercute no ambiente e pessoas por meio das energias dos grafopensenses (pensamentos, sentimentos e energia expressos por meio da escrita).
Instalado o conflito, gera-se a tensão interna, podendo ser rompida pela autodeterminação com base na vontade inquebrantável de corrigir o erro ou o autoengano.
O momento seguinte caracteriza-se pela busca de desdizer o dito, desfazer o feito, de modificar as energias pela produção de grafopensenes pautados em princípios cosmoéticos. A forma de superar é escrever o contrário, desdizer o que disse sem medo de ser apontado(a) como contraditório(a) ou “vira-casaca”. Essa atitude não significa se perdoar pelo erro cometido por ignorância ou pela lei do menor esforço, mas a autorreciclagem, a correção de rota, o início da pensenização (ação de pensar, sentir e atuar) pela lei do maior esforço em consonância com a liberdade de agir de acordo com os valores íntimos pautados na compreensão dos princípios avançados da ética multidimensional.
Assim, ao superar a pressão holopensênica, a partir da vontade qualificada pela intenção e da mobilização das próprias energias, a tensão é desarmada e o conflito superado. Provavelmente, a maioria das pessoas não irá compreender esse ato, principalmente aqueles que têm dificuldades de aceitar as mudanças, de libertar as pessoas das amarras criadas.
Esse posicionamento tem como consequência a liberdade interior ou autonomia consciencial caracterizada pela condição de a pessoa refletir por si própria, com base na cosmoética e pela renovação da holobiografia (o conjunto da história de todas as existências da pessoa), tendo em vista a mudança concretizada. Trata-se, também, da forma de se libertar da interprisão com o outro, assim como da pressão holopensênica da sociedade de forma geral.
*Pesquisadora da Conscienciologia – INTERCAMPI Recife
